Terça, 15 Maio 2012 00:01
Odenildo Sena
Odenildo Sena*Hoje não é meu caminho habitual. Muito raro, portanto, passar pela Rua Dez de Julho. Pois nesses dias, deu-se que eu  estava de carona para um compromisso na Joaquim Nabuco e o motorista amigo, sensível ao olhar de atenção que eu dispensava ao prédio à direita naquele trecho de rua, reduziu a velocidade num gesto de acalanto à minha expressão de nostalgia. Lá estava a fachada do prédio da Santa Casa de Misericórdia, ainda resistindo ao abandono e ao seu injusto destino. Como estarão aqueles extensos corredores à esquerda e à direita de quem adentrava à portaria, onde, num canto e ao alto, descendo do teto, havia um desses sinos antigos de bronze cujas rápidas batidas indicavam sempre o início e o término do horário de visitas? E as duas enormes alas no térreo, em lados opostos, ocupadas pelas enfermarias? E as escadas em madeira entalhada, que davam acesso aos apartamentos? E a varanda gradeada do piso superior, de onde se tinha uma panorâmica da área central, cercada por todo o prédio, espécie de praça retangular, repleta de plantas e palco da algazarra dos passarinhos, únicos a terem o direito de quebrar o silêncio naquele ambiente de aparente paz. O tempo apagou detalhes e a memória não alcança mais que isso.
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Terça, 24 Abril 2012 05:33
Odenildo Sena
Odenildo Sena*Historicamente a cena é incomum e, até pouco tempo, inaceitável. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) se une  à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e à Academia Brasileira de Ciência (ABC) e, juntas, assinam um manifesto onde pontuam preocupações em relação aos cortes profundos – diga-se de passagem – no orçamento do Ministério de Ciência Tecnologia e Inovação (MCTI) para o corrente ano. Incomum, de um lado, porque, fruto de uma compreensão obtusa em mão dupla, o setor produtivo sempre viu com algum desdém o papel da academia como componente fundamental para o desenvolvimento do país. A academia, por sua vez, sempre viu com desconfiança os propósitos do setor produtivo em relação ao mesmo fim. Ruim para todos, conviveram anos a fio com esse antagonismo, responsável, sem dúvida alguma, pelo lento processo de ascensão da nossa economia. Até pouco tempo inaceitável, de outro lado, porque é fato que, nos últimos anos, esses dois campos protagonistas têm sabido tirar boas lições da História, aqui e lá fora, e vêm construindo a madura e desejável compreensão de que essa, sim, é uma via de mão dupla que faz bem à economia e ao desenvolvimento do país e, por consequência, à sociedade. Muito bom, portanto, que os cortes orçamentários para CT&I tenham evidenciado a quebra desse nocivo paradigma e demonstrado o fortalecimento dessa positiva articulação entre o setor produtivo e a academia.
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Terça, 10 Abril 2012 07:38
Odenildo Sena
Odenildo Sena*
Todo ano é isso. Quando se aproxima o primeiro de abril, que insistem em transformar em trinta e um de março, as  velhas e cansadas vivandeiras ficam alvoroçadas e tentam colocar as unhas de fora. Dão uma de João sem braço e fazem de conta que ainda estão em pleno usufruto da ditadura implantada em 1964, que tirou do poder um presidente constitucionalmente escolhido pela vontade popular e mergulhou o país num regime de arbítrio que durou vinte e um intermináveis anos. Querem porque querem "comemorar" o que, por conveniência e tentativa de drible na História, insistem em chamar de "revolução". Não tem colado. A cada ano aumenta a expectativa de que, brevissimamente, o espaço interno de uma Kombi se torne um verdadeiro Maracanã para abrigar quatro gatos pingados. A despeito dessa evidência, não creio que devamos dar a mínima trégua a qualquer assanhamento dessa natureza. Pra usar uma expressão do tempo de eu menino, é preciso cortar e aparar. Como tenho dito e compartilhado nos 140 caracteres do Tuíter, o que se comemora é conquista da democracia. Ditadura se deplora.
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Terça, 03 Abril 2012 05:44
Odenildo Sena
Odenildo Sena*Fui não. Confesso que não me motivei nem um pouquinho a marcar presença no Fórum de Sustentabilidade ocorrido há duas semanas em Manaus. Acho até que nem vou tratar aqui do assunto, apesar do título já atribuído a este texto. Prefiro falar de um evento acontecido na véspera, promovido pela Secretaria de Desenvolvimento Sustentável, que  abordou o tema comunicação socioambiental, pra mim muito mais apaixonante. Lá estive e manifestei para uma atenta plateia minhas impressões sobre os grandes desafios de profissionais e estudantes levarem adiante essa dura missão. E sustentei meus argumentos em duas principais razões: a crença na abundância eterna e o apagamento da história. No primeiro caso, mais evidente a olho nu, parece-me indiscutível a resistência que considerável parcela da sociedade, independente de classe social, tem para acreditar na finitude daquilo que a natureza esbanja e bondosamente coloca à disposição da vida. Difícil encarar como possível que toda essa imensa floresta, com seu verde de tantos matizes e toda riqueza que se abriga em seu ventre, um dia possa sumir do mapa. Impensável crer que toda essa volumosa massa d’água chamada Negro e Solimões corra o risco de definhar e se transformar no simples filete de um córrego. E não são poucos os que assim ainda pensam. No segundo caso, que chamei de apagamento da história, idêntica convicção na crença da abundância eterna se dá pela ausência de referências pregressas. Como, por exemplo, convencer meu filho menor de que seu pai aprendeu a nadar em um belíssimo igarapé, se não é mais possível fazer disso uma das tantas experiências de sua vida? Como fazê-lo crer que, nos quintais de minha infância, a natureza pródiga nos provia de sustento sem nada nos exigir em troca? Passa-me agora a ideia de que o Prosamim, exemplo de programa que vem mudando radicalmente o cenário de diferentes pontos da cidade, é uma alternativa extrema e necessária diante do leite derramado, mas não deixa de ser, também, uma forma de apagar a história. As gerações futuras, imagino, rirão da nossa cara ao afirmarmos que, no tempo de menino, os moleques faziam das pontes da Sete de Setembro trampolim para belos e ornamentais saltos no igarapé. O desejável, mesmo, era que não tivéssemos precisado do Prosamim.
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Terça, 20 Março 2012 06:17
Odenildo Sena
Odenildo Sena* Nosso pequeno mancebo aqui de casa, nove anos cravados, mas já apressado contando os meses para o próximo aniversário, iniciou suas primeiras braçadas nas aulas oficiais de natação. Digo oficiais porque, a nadar aprendeu mesmo na marra com os primos, na casa de uma tia. A princípio, segurando-se na borda da pequena piscina, depois ensaiando alguns mergulhos guiados pelos batentes da escada, em seguida emergindo com os olhos arregalados e, no auge do processo, até capitalizar confiança em si, levando alguns caldos, naturalmente. Dir-se-ia, nos bons tempos, que foi autodidata, o que lhe confere a afoiteza de quem reúne uma larga experiência no ramo. Pura empáfia.
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Terça, 13 Março 2012 07:39
Odenildo Sena
Odenildo Sena*Os tempos são modernos. E de muita, muita velocidade. As coisas acontecem com tal celeridade, que nos deixam entontecidos diante do volume de informações a circular em todas as mídias. Dizem até alguns especialistas que  caminhamos para sermos criaturas de um mundo em que muito se absorve e pouco se analisa. Por trás disso, a insinuação de que, a cada dia, se esfarela o espírito crítico e o lugar comum assume a hegemonia em nossas relações. Confesso que não tenho ainda opinião formada sobre o tema. Por via das dúvidas, vou empreendendo um grande esforço pra nada deixar passar impunemente pelo meu crivo de leitor e ouvinte. Nesses dias, por exemplo, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) estabeleceu normas complementares para avaliar o desempenho dos nossos pesquisadores. Dentre elas – e essa me chamou atenção em particular –, a que estabelece o compromisso dos nossos doutores de compartilhar com a sociedade aquilo que fazem no cotidiano dos laboratórios e das pesquisas de campo. Isso se traduzirá em organização de feiras de ciências, promoção de palestras em escolas, artigos e entrevistas concedidas à imprensa. O propósito do CNPq é ampliar a difusão da ciência e popularizar suas ações junto à sociedade. De minha parte, nada mais justo, por duas razões principais: a primeira apoia-se no fato de que, no Brasil, 90% dos investimentos em pesquisa básica e aplicada saem dos cofres públicos, portanto vejo nisso uma forma de prestar contas aos cidadãos; a segunda, consequência natural da anterior, tem um efeito extremamente benéfico para a própria pesquisa. Quanto mais sabedora do quanto a ciência faz parte de seu cotidiano, da enorme influência que ela tem em todos os aspectos de sua vida, mais a sociedade exigirá dos gestores públicos política de estado para a área.
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Terça, 06 Março 2012 03:36
Odenildo Sena
Odenildo Sena*Sei que não deveria. Afinal, cumpriu seu papel. E muito bem. Mas começo a sentir saudades do metalúrgico na presidência da República. Vi-me acometido por esse saudosismo há três semanas, quando o Ministério do Planejamento anunciou cortes orçamentários nas ações de Ciência Tecnologia e Inovação e Educação. A coisa foi pesada. O orçamento do MCTI, inicialmente previsto para R$ 6,7 bilhões, perdeu a grossa fatia de R$ 1,4 bilhão, 22%. Caiu, portanto, para R$ 5,22 bilhões. Já no ano passado, dos R$ 7,4 bilhões, perdera R$ 1 bilhão, tendo sobrado R$ 6,4 bilhões. Ou seja, o que estava em franca ascendência teve sua rota invertida. Já o MEC, para este ano, teve aliviado do seu orçamento inicialmente previsto a exagerada fatia de R$ 1,93 bilhão.
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Terça, 28 Fevereiro 2012 07:07
Odenildo Sena
Odenildo Sena*Estava absorto em uma difícil tarefa em seu quarto. Atraído pelo barulho da água que escorria pela torneira do lavatório, hesitou um pouco, mas seu deu por vencido e deixou de lado um compromisso nem sempre fácil de apartar. Deu pausa no PS3, interrompendo uma dura e equilibrada batalha na qual Luke Skywalker, Han Solo e dois androides lutavam desesperadamente para resgatar a princesa Leia e deixar a galáxia livre das ameaças do perverso Darth Vader. Encontrou-me no banheiro, absorto naquele abominável trabalho diário de raspar a barba. O zumbido do aparelho não  me permitiu detectar sua silenciosa aproximação, o que me causou um susto danado, sem afetar sua sobriedade e, muito menos, o tom de voz beirando o autoritarismo. “Pai, desliga a torneira”. Dei-me conta do lamentável descuido e atendi, de pronto, aquilo que era mais uma ordem do que um pedido. Achei que, cumprida aquela nobre missão em prol da sustentabilidade do planeta, ele fosse retornar ao quarto e reassumir o comando da frenética batalha “Star Wars”. “Você sabia que um dia a água do planeta vai acabar, pai?” Claro que sei! Foi minha resposta imediata, seguida de uma carona oportunista na esteira das palavras de quem havia acabado de me dar uma lição. As florestas, os animais, os peixes, tudo vai acabar se a gente não tiver muito cuidado com tudo isso. Sabe o rio onde o papai aprendeu a nadar no tempo de criança lá em São Raimundo? Hoje não existe mais. Não tem mais água nele. Só lama. Mas o pequeno não deu a mínima para a tentativa de me aliar a suas preocupações. Encarou-me com firmeza, bateu levemente em minhas costas e não deixou por menos. “Então não estraga água. Só abre a torneira bem pouquinho quando for fazer a barba”. Tentei, ainda, uma saída pela esquerda, mas ele tomou a minha dianteira e prognosticou com a convicção de Nostradamus. “Mas quando acabar a água vai aparecer outro mundo”. Manifestei minha descrença franzindo a testa e balançando a cabeça. Não contou dúvida e completou sua profecia. “Só que os animais não precisarão mais de água. A pedra vai substituir a água”. Achei melhor parar por ali. Não tinha mesmo como me contrapor a argumentos tão pesados.
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Terça, 21 Fevereiro 2012 06:10
Odenildo Sena
Odenildo Sena*São conhecidas as razões que levam alunos de cursos na área de Engenharias a sumirem de sala de aula e  emagrecerem consideravelmente o grupo dos que conseguem chegar ao final da graduação. Mas três são consenso entre professores e coordenadores. A primeira está na formação básica. A despeito da aprovação nos diversos processos seletivos, a turma começa a ocupar os bancos de sala de aula sem bagagem suficiente para acompanhar disciplinas fundamentais como Matemática, Física, Química, sem contar com o domínio da variedade culta da língua materna, condição básica para interpretar os meandros desses e outros temas. A segunda razão está na falta de condições para se dedicar exclusivamente às atividades do curso. Entre essa vontade e a premência de suas necessidades básicas, os alunos optam por esta última, principalmente os de situação econômica menos privilegiada. Aí se tem o agravante de elitizar esses cursos. A terceira tem amparo no aquecimento do mercado. Alunos em períodos mais avançados acabam seduzidos pelas empresas, carentes de profissionais, que lhes oferecem chances que vão além de valores tradicionalmente pagos a estagiários. Diante dessa realidade, mesmo formando 23 mil, o Brasil tem iniciado cada ano com um déficit de 20 mil engenheiros, fato que compromete as reais necessidades de seu desenvolvimento. O que fazer, então?
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Terça, 14 Fevereiro 2012 07:38
Odenildo Sena
Odenildo Sena*A situação não está pra brincadeira. O Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea) nos dá a  notícia de que a cada ano há um déficit de 20 mil engenheiros no Brasil. No acumulado de poucos anos, não é preciso ser nenhum engenheiro para se calcular o estrago que isso representa na sustentação do desenvolvimento do país. Ao lado disso, e agora os dados são do IPEA, 35% dos formados nas engenharias estão atuando em áreas alheias à função. Se partirmos para as comparações, o quadro se evidencia como mais preocupante ainda. Para cada mil trabalhadores ativos, por exemplo, o Brasil conta com seis engenheiros; Japão e Estados, com 25; França, com 15. Limitando-se aos países do chamado BRIC, o Confea nos dá os indicadores de que, enquanto em nosso país formam-se 23 mil engenheiros por ano, na China esses números chegam a 300 mil, na Índia, 200 mil e na Rússia 100 mil.
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